Certa vez assisti a uma palestra da jornalista Neide Duarte,
“O papel dos jornalistas na construção de um mundo novo”. Fiquei apaixonado
pelo texto. A gente não aprende isso na faculdade, mas devia ter a fala da
Neide como uma oração diária.
"O jornalista é um mediador entre dois mundos. E isso
não significa apenas poder, mas também humildade, aceitação, de ser apenas o
que deixa passar, deixa fluir através de seu trabalho o trabalho de outros, as
idéias de outros, o caráter de outros."
Assim poderíamos todos nós jornalistas ou trabalhadores em
meios de comunicação orar todos os dias. Senhor não me deixeis cair em tentação.
Fazei que eu seja apenas e tão somente o que deixa passar. Para os espíritas,
seria como o médium que recebe a mensagem do além.
Como somos humanos e, lógico, passíveis de erro, não é raro
cairmos na tentação do fazer algo diferente, colocar um "q" a mais,
dar um tempero, uma pitada de sal, pimenta. Vixe! Combinação explosiva. Tempero
e jornalismo sério não combinam.
Uma vez, enquanto editor de jornal, caí na tentação de
dar tempero local em uma notícia
nacional. Confesso. Foi um desastre. Fui acusado de ser insensível à dor dos
familiares de centenas de mortos do avião da Tam no aeroporto de Cumbica, em
São Paulo. Por que? Apenas para fazer algo diferente do que foi feito nos
jornais de todo país.
Também não combina com o jornalismo a raiva ou as desavenças
com colegas ou quem quer que seja. Certa vez, disse a uma colega que o texto
dela estava errado. Ela retrucou. Ficou brava que nem pata choca. Eu disse: vou
publicar assim e você assume as conseqüências. Na verdade, não deixaria sair
com o erro por simples capricho, mas, como em redação o diabo está sempre
solto, e se você deixar rabo, ele pisoteia. Por um erro, o texto original
acabou indo às páginas do jornal.
A matéria referia-se a deputado petista, no tempo em que o
PT era quase que uma religião. Os petistas ainda se julgavam incólumes. Foi
mal. “Estrumbicou-se” a repórter e eu juntos. O deputado processou o jornal e a
pendenga durou muitos anos, mas quando se tem poder e jogo de cintura dá-se um
jeito. Acabou em pizza, sem antes uns bons puxões de orelha.
Criticar colegas de trabalho então. Dá uma "zica"!
Mesmo porque, o jornalista é o que deixa passar. E esse deixar passar é
próprio, pessoal. O que passa por aqui, não por ali, acolá e por aí fora. Passa
diferente.
Outro dia vi um caso interessante. Uma colega, não sei se
jornalista, aprendiz ou estagiária, postou uma matéria sobre o elenco do
Uberaba Sport Club. Não lembro com detalhes, mas ela citou a apresentação tipo
de 18 jogadores e postou uma foto onde havia 25 ou mais.
Daria até para criticar. Poxa, como alguém faz isso? Erro
banal! Nada disso, nem tudo parece como é. Pode ser que a menina esteja até
muito mais certa do que nós velhos de guerra. Talvez ela tenha filtrado no meio
dos 25,apenas os 18 que realmente eram ou são profissionais futebol. Os demais.
Ah! Os demais estavam ali como mero coadjuvantes. Não estou afirmando, mas pode
ser.
Outro dia, eu ouvi, se me contassem eu não teria acreditado,
mas ouvi um colega criticar o outro e, em meio a sua ira, dizer em aos ouvintes
uma frase pronta: "NÃO QUERO DERRUBAR NINGUÉM, FRUTO PODRE CAI SOZINHO”.
E não é que, conforme o próprio autor da frase, enquanto
rodava o intervalo comercial, ele caiu da cadeira. Com certeza foi o capeta que
ronda as redações que o derrubou. Com certeza, ele não havia feito a oração do
dia, pedindo para ser manso e prudente. Para ser, apenas aquele que deixa
passar.
Quanto ao colega que caiu, creio que ele não deve ficar
preocupado, assim como o colega que criticado. Afinal, um caboclo da roça como
eu sabe que nem todo fruto que cai sozinho está podre. As pitangas, os limões
galegos, os condes, as atas, os araticuns, as jacas, as graviolas quando
maduros caem por si só, propiciando aos animais que não conseguem acessá-los
quando ainda estão no pé uma farta alimentação. Além disso, neste ato de
caírem, de largarem o caule onde estão presos, espalham sementes e geram novos
frutos.
E mesmo os frutos podres também não são de todo ruins. Eles
protegeram os frutos que não apodreceram. E uma vez no chão, também servem de
alimento e, mesmo quando isso não acontece, mesmo que não gerem novas vidas,
incorporam à terra, fertilizando-a para que novos frutos possam vir.